Fortaleza 03 de Junho de 2007
Ela acordou no meio na noite, olhou no relógio e eram 23:59, uma dor lascinante massacrava o peito, parecia que tinham arrancado um pedaço de sua alma, a vontade era de dormir e não acordar nunca mais...então sentiu uma respiração ritmada na cama, um pequeno braço ao redor de sua cintura, uma pequena perna em cima de suas coxas, uma pequena vida que dependia da dela, mas a dor era muito grande, e a decisão era por demais dolorosa, sofrer ou deixar aquela vida sofrer...ligou o piloto automático e mergulhou dentro da sua própria escuridão.
Não sentiu, viu ou ouviu nada do mundo externo até as 18:03 do dia 04 de Junho de 2007, ela acordou e havia um buraco no chão, bem menor do que o no sei peito, haviam pessoas estranhas em volta, elas falavam com ela numa língua que ela não entendia... Alguns choravam, ela olhou dentro do buraco, havia uma caixa retangular amarronzada, com adornos dourados, uma cruz e então fez sentido, a dor só aumentou... ela sentiu o rosto molhado, era ela que estava ali, era sua ultima oportunidade de se despedir, de pedir perdão, será que ela ainda a amava? Mesmo depois de tudo... Eu não queria sair, sentia algumas pessoas com cheiro conhecido perto de mim, uma voz tão conhecida...querida até cantarolava Cazuza- Vida Louca... na minha mão uma rosa branca, um último suspiro e a arremesso naquele buraco escuro, onde a pessoa mais importante da minha vida vai, onde o colo onde muitas vezes me escondi por medo de um pesadelo ou por vontade de ter por perto me acolheu, e parece que a dor vai me rasgar ao meio, é tão difícil sair de lá.
Uma mão forte me guia por um caminho tão bonito, está cheio de flores... parece que sirenes de ambulâncias estão tocando uma música, tem um monte delas num ritmo tão triste. Tem um portão bem grande lá no final, mas antes de atravessar me colocam num carro, vejo o rosto de meus amigos mais queridos, dos meus colegas de farra e bebedeira, só que eles parecem que estão derretendo, vejo minha família toda, poxa até parece que morreu alguém alguém, eles só se reúnem assim em velórios...mas não, pera. Morreu alguém, foi isso, foi por isso que apaguei, aquela dor, aquela dor que me acordou, ela me disse...É o velório da minha mãe, eu acabei de enterrar a minha mãe. Meu mundo está no chão e em tantos pedaços que eu não posso juntar, tem uma escuridão tão densa dentro de mim que se eu respirar fundo ela pode escapar e eu vou poder toca-la. Do meu lado está um dos meus melhores amigos, agora eu vejo melhor é o M.E, ele ta passando a mão na minha cabeça. Que bobo, os olhos dele estão tão vermelhos ele nem ta com aquele sorriso fofo dele de quando faz besteira, ele ta tão triste, e eu só quero deitar e dormir amanhã quando parar de doer, eu pergunto porque ele ta tão triste, me deito naquele colo conhecido e passo a me ver de fora de novo.
Eu acordei, olhei no relógio, estranhei... era quase meia noite e me acordei com um sensação de perda, a um minuto atrás eu juro que tinha alguma coisa errada, mas esqueci exatamente o que era. O Pedro Johann ta dormindo tão profundo, acho que preciso beber um gole de água, o telefone toca, meu pai e minha tia estão na sala, eles não podem ouvir, era minha tia Magnolia( sempre achei lindo o nome de flor) a voz dela é tão gostosa de ouvir... ela me dizia:
Sua mãe acabou de ter uma parada cardíaca, os médicos estão no quarto tentando uma ressuscitação, não acorde seu pai, nem a Nina( minha outra tia), assim que o dia nascer eu chego a e converso com eles, ok?
Sim!
Durante o resto da noite eu não dormi, comecei a organizar os papeis do cemitério, da funerária, do hospital. Arrumei a mine mala para vesti-la e arruma-la, fiz tanto carinho no meu filho como se pudesse acalentar a dor de perder alguém só de olhar, ainda mais alguém que o tratava como um rei, para quem ele orava toda noite pedindo a papai do céu para acabar a dor.
As seis da manhã, meus olhos vidrados na cama, ouço um carro parar...deve ser minha tia, me levanto com cuidado para não acordar meu filho, passo pela sala em silêncio e me dirijo a porta, assim que abro minha tia me abraça, os olhos inchados de chorar, os meus não.
Ela acorda meus pai e minha tia, conta. Poxa, eu tenho que ser forte agora para acalentar eles, ligo para meu marido vir buscar meu filho, é cedo mas mesmo assim acordo ele, ele vem, eu falo o porque, ele me abraça, eu o afasto, não quero carinho agora. Beijo meu filho, explico que a vovó foi para o céu, ele só tem 3 anos, ele não entende, pergunta que horas ela volta, não tenho paciência.
Pego a mala, pego os papeis, entro no carro, celular na mão, ligar para família, avisar do velório, to indo para o hospital, o corpo é liberado para a funerária, alguém da família tem que ficar junto, meu pai e tia não estão bem, eu vou. Minha mãe era o pilar desta família, eu tomo o lugar dela neste momento. Os homens sujos pegam no corpo da minha mãe na minha frente, a limpam enquanto conversam sobre a próxima farra, fazem um corte na coxa dela como se fosse um pedaço de carne, me imagino gritando com eles, dizendo para eles terem cuidado com minhã mãe, ela vai acordar e vai tirar o couro de vocês... Mas minha voz não sai, vejo a derme, a epiderme, a gordura, não tem sangue, sai um cheiro ruim do corpo dela, algum deles comenta, ignorando minha presença lá, que é porque ela tava com todos os orgão apodrecidos devido ao câncer, tinha que ser injetado formol na veia para as pessoas velarem o corpo, um liquido negro saí de todos os orifícios dela, é drenado por uns tubos que saem de um grande aspirador. Ela já está toda limpa, pela 1ª vez em duas horas eles me notam, pedem para eu ajudar a vesti-la. Pego um dos únicos vestidos da minha mãe, um amarelo...que ela pouco usava, não era pratico, visto uma calcinha, o vestido e a deito naquela pedra fria, da pedra para o caixão, tem um pano macico, parece seda, eles a deitam lá e a cobrem com aquilo, poxa parece mesmo que ela está dormindo. Fico o tempo todo lá, entre uma ligação para o cemitério reservando o terreno e o espaço para velório e olhada em como está meu pai. Está na hora de ir para o cemitério, antes do enterro vai ser o velório e a missa, para dar a oportunidade dos amigos e parentes se despedirem, passam-se horas, eu vou no carro com o corpo dela, nem sei onde estão o resto, no carro, só eu, minha mãe e o motorista, ele fala sobre alguma coisa e sorrio e concordo educada, não sei o que ele falou... Já está bem frio, eu estou do lado do meu pai, meus amigos do meu outro lado, eu estou de frente para o caixão, nenhuma lagrima escorre, meu pai chora compulsivamente toda vez que alguém entra, acho isso tão estranho, entra o padre, o que me cobrou 100,00 R$ para celebrar a missa da minhã mãe, ele fala umas 3 palavras, reza o pai nosso e saí, isso é que serviço fast. Alguns homens carregam o caixão e uma passeata acompanha em direção de uma vala no cemitério, lembro que foi a 1ª vez que fumei na frente dela, e ainda deu um frio na barriga, mas eu precisava daquele cigarro. Então... o caixão foi descendo... meus amigos me afastaram da minha família, ficamos ali em silêncio, rodeada de pessoas que eu amo, todas cantando Cazuza numa homenagem a mulher da minha vida, as 10 ambulâncias do SAMU com a sirene ligada em homenagem a uma das 1ª mulheres entre eles...entre eles a mais de 15 anos e a dor volta, com tudo, e começam a cair molhando meu rosto, salgando minha boca, muitas lagrimas, todas daquele dia, todas de um bom tempo...
Faz três anos sete meses dezoito dias que eu vivi isso, mas só hoje eu me permite chorar o nesessário por esta lembrança.