
Um dia minha mãe me levou para conhecer os outros. Eu desci aquela escadaria enorme e tentei ao máximo que controlar, eram pessoas importantes, eram a ligação em sangue, meu elo com o mundo material e imaterial, real e insano, eram os reflexos no amplo espelho dilacerado. E me vesti, pus aquele vestidinho vermelho com o laço na cintura, aquele que mamãe diz que fico com carinha de princesa... tinha que causar boa impressão.
Desci quase correndo, se meu coração ainda batesse, seria audível, já faziam alguns invernos e eu seria apresentada a toda a família, já tinha ouvido grandes nome... alguns bons como Anatole e outros nem tanto como Ankol, mas o que me fazia sentir o frio na barriga dos mortais era o meu predecessor, minha mãe antes de mim tinha um filho preferido. O Coisa.
Eu queria ser amada por ele. Não me perguntem o porque, mas eu queria muito, mamãe dizia que ele era especial. - Mamãe como é o Coisa? - Adorável, querida. E eu queria ser amada assim por ele.
Me mirei no espelho mais uma vez, aquele que tem no meio da escada, aprumei o laço no topo na cabeça, desamassei as pregas do vestidinho, calcei minhas pantufas de coelho e me senti a garota mais bela da festa. Antes de descer vi muitas pessoas, algumas muito bem vestidas, outras nem tanto, alguns com aparência de sábios, outras não, alguns com olhos de vítimas e outras com olhos de predadores.
Olhei mamãe no canto com duas criaturas semi rastejantes, bebendo de sua mão, juro, fiquei com ciúmes, mas ela é ela e faz o que quer e quando quer, por uma fração de segundo imaginei eles se contorcendo nas chamas, mas anulei o pensamento feio e mesquinho. Enquanto observava ao redor vi um homem grande, maior do que todos que já vi, ele se escorava num canto e falava com uma coisa, um objeto que brilhava, a voz era doce e bela.
Alfred, não gosta daqueles bichos perto da Senhora. Alfred, quer usar o fio de aço neles, eles querem sujar o sangue da Senhora.
O dono da voz olhava para mamãe e para o … machado? Céus, quem deixaria um louco, numa reunião de loucos, armado? Só mesmo um louco... tsc tsc ( Desculpem o trocadilho hehe)
A voz dele entrava na minha cabeça sem eu mesmo querer, a voz dele era um pedaço de mim. Me aproximei, atrevidamente e toquei na sua mão, não sabia o porque, mas era disso que ele precisava, do meu toque.
Alfred, sabe que a Senhora sabe se cuidar, e que ela ama igualmente todos do sangue, e mais só um pouco os que descendem diretamente dela, não é, meu irmão?
Eu e ele sabíamos, como se fossemos peças de quebra-cabeças que nos uníamos, eterna e longamente.
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