Alvorecer.

Quando completei seis anos questionei a meu pai o porque de mamãe não estar com a gente, todos os meus colegas de escola possuíam uma mulher doce que lhes fazia o lanche da escola, lhes levava e buscava na escola, que esquentava o leite antes de coloca-los para dormir e que era chamada de mãe, mas na minha casa não havia mulheres, era só eu e o papai.
Neste dia ele me falou que a mamãe era uma mulher malvada que havia me abandonado, lembro que chorei duas noites seguidas silenciosamente no meu travesseiro. Todos os terapeutas que conheci até hoje acreditam ser esse o motivo pelo qual sou tão rebelde, eu não. E você Drª?
A mulher negra de sobrancelhas arqueadas na minha frente somente sorri, faz uma anotação numa pequena caderneta e refaz a brilhante pergunta de sempre.
_ Como você se sente a respeito disso, Alvorada?
_ Sabe Drª, eu já estou quase me formando em psicologia, sabia?
_ Como?
_ Pela minha experiência de 5 anos em salas como essa vi que para receber esse diploma basta fazer caras e bocas, fingir que faz anotações, fingir que está escutando o paciente e repetir inúmeras vezes essa pergunta "Como você se sente ?"
Ela me observa, suspeito que falei demais, talvez 12 seja o numero máximo de profissionais da terapia que você pode aborrecer antes de ser mandada para o hospício ou o reformatório.
_ Desculpa Drª Gomes, estava tentando distrai-la, não se repetira. Prometo que serei uma boa garota agora.
_ A sessão acabou Alvorecer, até a próxima sexta. Espero que esteja mais aberta até la, assim poderei ajuda-la melhor, está bem?
_ Claro.
Dou meu sorriso de 1 milhão de dólares, aquele me tira das encrencas na diretoria para ela e saio do consultório, contando mentalmente a quantidade de meses, 78 meses e 2 semanas para me tornar legalmente capaz. É frustrante ter 11 anos por aqui.
_ Como foi a terapia querida?
Quem deveria ir para a terapia era você, seu gordo asqueroso com dupla personalidade.
_ Bem papai querido.
Sorria sua estupida ou ele lhe segurará aqui até o monstro aparecer. Aparentemente o sorriso funcionou. Sexta a noite é dia dele sair e eu terei uma noite minha.
_ Vou para o quarto estudar papai, tudo bem?
_ Vá meu anjo, papai vai dar uma saidinha, mas volto logo, ok?
_ Ok!
Entro no quarto me tranco antes do Monstro aparecer, pego o MP4 Lie- Korn explode pelos fones. Meu corpo está doendo aquele sinal de nascença na parte interna da minha coxa está vermelho, queimando parece uma lua de sangue e fogo. Minha cabeça está pesada, meus ossos parecem ter vida própria e uma vida a ser vivida fora do meu corpo, vão fazer uma festa e minhas carnes não foram convidadas, legal. Deve ser a tal da puberdade que está batendo na minha porta ou a terapeuta que me rebolou uma praga com o tal do “ estar mais aberta” e se tornou literal.
Que droga! A dor é tão grande. Está tudo tão borrado, errado, vermelho...
_ Ontem eu tive um sonho esquisito, estava enorme, tão viva quanto nunca tinha me sentindo nesses onze anos de vida, havia sangue e ele saía de mim, havia dor, mas isso só me deixava mais furiosa, e dava um onda de poder que levantava todos os meus pelos. Eu podia sentir o cheiro de bebida do mendigo da rua nove a quilômetros de distancia, podia ouvir o sussurro de todos os vizinhos do quarteirão, aquela menina mais velha do final da rua estava fazendo coisas com o namorado e eu sabia só pelo palpitar do seu coração.
Eu estava com tanta fome, um desejo gigantesco de carne, gigantesco... essa era a palavra certa, parecia que era maior que eu, parecia que nada poderia supri-lo, saí do quarto, quando atravessava o corredor em direção a cozinha dei de cara com meu reflexo no espelho do banheiro, mas não era eu, era um animal grande, de pelo escuro, com grandes músculos em lugares que eu nem sabia da existência, passei uma fração de segundo observando o grande animal, não mais que isso pois tinha alguém exigindo minha atenção, rugindo, era meu estomago.
Já havia consumido todos os bifes que estavam na geladeira e nada daquela fome bizarra passar, a essa altura sem perceber eu já estava salivando parada na porta de casa, presa dentro daquele corpo animal que não me pertencia farejando o mendigo da rua nove, caminhando movida pelas imagens de meus dentes no seu corpo imundo. Mas um cheiro familiar me tirou quebrou o transe da caçada, vinha da praça abandonada no final da cidade, a assombrada. Tomo impulso e me vejo correndo numa velocidade incrível, estou de quatro e corro como uma lebre, não, como uma loba, uma rastreadora.
Do outro lado da praça está um grande cachorro negro, pelo cheiro é uma fêmea e ela está chorando?cantando?uivando? Uma mistura perfeita de sentimentos e ela parece tão furiosa, perigosa quanto triste. Antes de poder alcança-la, toda aquela dor volta, olho para o céu e está tudo vermelho, acho que agora vou morrer, na praça abandonada vendo o nascer do sol mais bonito do mundo.
_ Então é isso Drª. É por esse motivo que eu pedi uma consulta de emergência , acho que estou tendo alucinações.
_ E você acordou na praça?
_ Não, em casa, mas tenho certeza que estava com minhas calças cargo militar marrom e minha camisa preta do Metallica só que acordei com o blusão de dormir e essa muda de roupa não estava em lugar nenhum.
_ Você provavelmente a tirou para lavar e devido a sua habitual falta de concentração não se lembra aonde colocou.
_ Deve ser.. Sonho meio louco , não é?
_ Talvez seja você se abrindo mais...
_ É... Talvez.
Eu já fui a muitas terapeutas, mas essa mulher tem um jeito estranho de me olhar, um brilho meio bizarro e dando uma olhada melhor ela não parece uma terapeuta.
Droga! Agora estou com mania de perseguição, acho que sou filha do velho maluco mesmo e essa coisa de paranoia delirante é mesmo hereditária. Não podia ter nascido numa família normal com pai, mãe, irmãos, ricos, bonitos e saudáveis para ter algo genético útil a ser herdado? Deus, você é um cara hilário. E vocês, pai doente mental e mãe vagabunda que me abandonou, são pessoas com um puta senso de humor, de onde tiraram registrar um pobre criança com o nome de Alvorecer? Nascer nesta família conturbada já me ajuda o suficiente a passar pela adolescência na escola pública sem muitos traumas.
Primeiro dia do ano letivo, sou adiantada, tenho um pai maluco, vou a terapia desde os seis anos, fui abandonada pela mãe antes de saber falar “gugu-dada” e tenho um nome bizarrinho. Isso já ajuda e muito na minha popularidade negativa, só que além disso , já vai fazer um ano que tenho apagões e conforme a minha agenda é sempre no período da primeira lua cheia. Me sinto vigiada e não é por aqueles garotos estúpidos da turma popular, é por olhos invisíveis que são mais rápidos em se esconder do que eu em identificar.
Minha vida familiar, pessoal, social e acadêmica está uma verdadeira merda e amanhã será meu decimo segundo aniversário e cairá bem na lua cheia, o comemorarei no consultório de Drª Gomes, espanquei com a cadeira um garoto metido a engraçado da 8ª série. Parabéns para você Alvorada!
Noite de lua cheia, estou decidida a parar com os apagões, eu já tenho doze anos, já estou grande o suficiente para me controlar, essas foram as palavras do Monstro ao me dar minha surra de aniversário.
Parece que o Monstro fica cada vez mais furioso comigo com o passar dos anos, o ouvi pensar alto, nem sabia que era capaz de tal proeza, ele me acha parecida com a mamãe, sussurrou algo como se fosse acabar de destruí-lo, terminar o serviço que ela começou. Nasceu uma certa empatia por essa mulher misteriosa que me “deu a luz”.
Já está tudo pronto, me tranquei no quarto com a filmadora ligada, tenho que descobri o que acontece antes que eu fique nua. Toda vez que apago perco uma muda de roupa.
Sonho de novo. Só que dessa vez eu gravei e vou ver o que acontecesse com as minhas roupas neste acesso de sonambulismo mensal.
_ Podemos ver que você tem um talento nato para o cinema querida Alv, estes efeitos são incríveis, a tecnologia faz mesmo coisas inacreditáveis, esses computadores, se eu tivesse a sua idade realmente me convenceria, sabe.
_ Não é efeito.
_ Você não me falou que tinha feito uma amiga, muito menos uma dessa idade.
_ Não fiz.
_ Então, quem é a mulher que a carrega no colo e lhe veste ao amanhecer? Uma atriz?
_ Não sei.
No dvd me contorço de dor como no sonho, mas eu cresço, pelos aparecem por todo o meu corpo, meu rosto toma uma aparência bestial, durante o crescimento minha roupa virá retalhos, pelo menos este mistério está resolvido. Saio pela janela e ao amanhecer uma mulher loira, vestida com um manto negro me traz nos braços nua, coberta de sangue, me limpa, aplica uma injeção na minha coxa e me veste com a velha camiseta de dormir. Ela olha para a câmera, sorri e os olhos são dos mais belos castanhos que já vi, tão parecidos com os meus, e tem um brilho tão familiar...

Sozinha


Do corpo físico já nada mais restava, estava presa em um mundo imaterial e denso, as carnes podres já haviam se desfeito a séculos passados, mas algum desejo ou missão não descoberta ainda prendia a sua não existência à existência dos demais.
Triste ver o mundo mover sem perceber que você não o move mais, triste ver pessoas que ama se reproduzirem, envelhecerem e morrerem sem ao menos saber que você está.
Para não perder a lucidez, o tino ou qualquer coisa que a mantivesse raciocinando, acompanhava o passar dos anos a evolução e os laços da família, tentava truques com os mais jovens, era amiga imaginária de muitos, ajudou com objetos perdidos escondidos por ela mesma. Tudo o que pode para se manter presente.
Hoje senta aqui e espera, a última de sua linhagem está terminalmente doente, os cabelos já não mais permanecem no lugar, os ossos já não mais se escondem pelas carnes, o vazio dos olhos já não tem mais nenhum brilho.
Serena, sua tetra- alguma coisa neta está deitada na maca do hospital, fitando no espelho a morte que se reproduz numa caricatura da própria face. Eu não vejo tristeza, não vejo dor, não vejo medo... Só uma grande espera, se pudesse ler pensamentos ouviria com certeza o contar dos minutos numa canção repetitiva com aquela voz tão doce, hoje emudecida.
Ela tinha sido sua amiga-descendente preferida. Curiosa e sempre atenta, aprenderá muito rápido e buscava sempre mais, foi a que a manteve junto até a adolescência, algo que nunca tinha acontecido desde que se lembrava de viva ou morta.
No dia 21 de Setembro de 2009 seus pais partiram numa viagem e como presente ela teve sua festa de 15 anos com a casa só pra ela, como qualquer adolescente o previsto era muita bagunça e baderna, mas a festa foi só nossa. Foi lindo! A casa foi coberta de rendas rosa pálido sua cor favorita e vermelho sangue a minha, assistimos filmes naquela máquina que ela se divertiu tanto a me ensinar o nome, o dvd, dançamos lago dos cisnes como na minha festa, ouvimos músicas que ela conhecia e que para mim parecia berros e uivos e sorrimos como não fazia em vida. Foi nosso último dia juntas, ela me culpou pela perda dos pais, acreditava que eu possuísse algum poder de reverter, prever ou eliminar coisas ruins.
Como eu queria, queria poder evitar verter daqueles olhos cinzas qualquer lágrima, recebemos as noticias do acidente antes da meia-noite, eu atendi a porta, todos estranham quando abro a porta, o policial ficou parecido com uma vela, rimos ás duas. Ele seguiu a risada de Serena e a encontrou saltando por trás do sofá em roupas de balé. No mínimo deve tê-la achado estranha, uma moça naqueles trajes, a segurou pela mão e em tom baixo a comunicou.
Ela seguiu para a viatura esbravejando e praguejando comigo ás lágrimas, mas eu não tenho culpa, nem daquilo nem do que a toma agora.
Essa doença traiçoeira que corroí seus órgãos por dentro e a faz definhar, ela nunca casou, ela nunca teve amigos, eu sei, a observei de perto de tão perto que poderia descrever o tom de seu cabelo durante o inverno e o verão, o cheiro de sua pele depois de sair da piscina por horas de nado a noite.
Tudo na vã esperança de ela me chamar, e agora aqui, contando os minutos para o fim de nossa família, eu choro, e sinto que ela pode ouvir meus soluços, mas ela não me vê, ela não quer mais me ver.
E ficarei aqui, sozinha e insana para sempre.

Uma visão interna.

Estou aqui, presa no abismo. Escuridão cerca e sufoca em todas as direções, é possível se movimentar através de suaves braçadas idênticas as da natação, aquelas que sempre me foram úteis para espairecer na piscina pública no final da rua. Hoje estou aqui, no meu auto intitulado inferno particular, meus irmãos de dor e sofrimento seguem por uma luz, já descobri pela experiência que a luz não é igual a salvação. Estou aqui por seguir uma luz, não serei eu que cairei nesse segundo golpe. Aos meus favoritos dou o conselho, mas os filhos da puta não seguiam conselhos nem quando eram vivos, dirá agora que são demônios, não que essa terminologia seja a apropriada para o caso, são só almas atormentadas e com feições apropriadas as violências, afinal daqui do nosso lado a carne já não cobre mais a podridão. Atire a primeira pedra quem nunca maculou sua alma com pré julgamentos, com desejos egoístas ou uma leve gota de orgulho? Negar isso também deixa marcas...
A maioria sobe guiada por um sede de vingança, por um desejo de violência, por razão que apesar de não serem conhecidas por mim, literalmente transparecem ao olhar, a luz é o reflexo da lua atravessando a água do poço, o poço usado como portal por algum humano bizarro e metódico que resolveu soltar as bestas do inferno na terra, e o pior que daqui a algumas horas, minutos ou segundos será meu vizinho, que maravilha. Tudo bem! Sou uma pessoa curiosa, não me arrancariam os olhos por uma espiadela, não é?
Ouço urros e tintilares de metal, os urros são palavras de rancor de alguns dos vizinhos, velhos conhecidos pela preferência de palavras depreciativas, os tintilares de metal são espadas retalhando a investida de meus irmãos, que inapropriado, os caras passam eras presos no mundo inferior e quando humanos presunçosos os convidam para uma festa particular, vem essa repressão... Ainda bem que não sou mais uma criatura de fúria, ainda bem que meus olhos não queimam mais e ainda bem que eu conheço alguém que pode equilibrar essa disparidade, afinal guiar alguém não é o mesmo que fazer, não é?
Esgueirando-me por entre a escuridão lamacenta, inalando com certa intimidade o odor de enxofre que já me segue desde tempos imemoriáveis, limitando o contato de minha pele apodrecida e escamada aos demais vizinhos, me aproximo de Simaleon, ele é o que todo mundo descreve como a besta, mas é um cara sensato, sempre faz o que indico para ele, é muito doce por sinal, gosta de presentear os amigos, e sempre os agrada com as cabeças decepadas dos inimigos ainda jorrando sangue quente para apaziguar a fome.
Simaleon está sentado no canto, ainda com trapos que apesar do tempo, lhe cobrem as “vergonhas”, o capuz ainda esconde sua face, da qual se envergonha por não ser desmazelada como as dos demais, aqui o feio é ser belo. Ele afia seu machado, amigo inseparável do bárbaro humano, é seu passatempo preferido, apesar de não ser possível observar seus olhos, sei que está sorrindo e mostro meus dentes, é o que as carnes apodrecidas que cobrem meu rosto deixam fazer mais próximo de um sorriso. Sussurro em seu ouvido as injustiças ocorridas lá fora, que seus irmãos sofrem nas mãos dos injustos e vejam só, uma faísca se ascende. Agora é só sentar e ter realmente o que observar... O que? Vocês achavam que eu estava no inferno inocente? Hahaha

Sonhos...


Esse mundo precisa de heróis, as coisas estão se afunilando. Esse sempre foi o mantra de sua mãe no café da manhã, engraçado como todo dia ela repetia coisas sem sentido até parecer que era certo, suspeito que a verdade depende muito de quantas vezes e com que ênfase foi proferida. Sento-me na beira da cama, sou tão pequena que meus pés mal tocam no chão frio e rubro que na minha visão se torna mar... Sento-me e aprecio a vista das paredes rosadas do meu quarto, nunca gostei de rosa, sempre quis pintá-las de roxo e preto, mas nunca foi conveniente e a conveniência é a alma do negocio, me perco a admirar minha iniciais rasgadas na carne da parede, tudo é meu, é meu domínio e território e tudo posso aqui, mesmo com dez anos sou senhora e dona de tudo. Tão egoísta e egocêntrica esse projeto de gente perdida num mundo de fantasia. Nesses momentos o sonho se sobressaí a realidade, tudo é mais bonito no passado remoto, tudo é mais brilhante pois já passou e nada se pode mais. Ouço meu próprio soluço de medo e lágrimas no escuro do quarto, mas é de outra parte, é preso ao canto esquerdo próximo a porta, é de lá que outra eu mais velha e atordoada vê a menina e chora, dona de conhecimento que não compartilha e que machuca até de ver. Meus olhos se abrem no meio da noite, não está escuro, o meu mundo sempre precisa de luz e há uma tênue linha de brilho resguardando seu sonhar, não há nada a temer. Eu estou aqui pra o que for, cheia de medo e sustos, mas firme e forte, pronta para lutar. Até mesmo contra mim...