Diários XIII


Toda criatura pensante tem altos e baixos, até mesmo os brujhas que não são tão pensantes assim tem essas fases...
Acabei de sair de uma crise, um período vermelho pode-se assim dizer, meus olhos, todos eles, estavam costurados( não literalmente) com linhas de insanidade, levemente temperada com o ardor do sangue. Minha mãe como sempre, anjo de sensibilidade e satisfação, me guiou para fora das paredes que trancafiavam minha habilidade de raciocinar. Quantas mais deverei a ela? Um número impossível de calcular.
Hoje as vozes me disseram para caçar. Não algo para preencher a sede, mas algo pra acalmar a alma dessa amaldiçoada criatura que voz escreve.
Ergui-me ao anoitecer, com uma facilidade que me faltava nos meses anteriores, um objetivo me guiava na direção contraria a morada dos anjos... Sua voz me chamava, rouca e perdida, tão conhecida aos meus ouvidos aguçados, tão melodiosa quanto o cantar da harpia. E eu segui.
A cerca e a escuridão me separava do meu objeto de desejo.
Ele movia-se com desdém, como se as coisas não estivessem realmente ali, o seu dançar por entre os brinquedos do parque me deliciaram a alma. Tão desajeitado, com tanto pesar, com a alma tão rodopiante, eu o queria pra mim.
Os dedos moviam-se rapidamente a procura do cigarro, o desejo era tão profundo com era fácil visualizar nos seus olhos, a frustração do maço vazio e o arremesso furioso ao chão, como se dali brotasse magicamente pelo efeito ritualístico o dono do seu vício. O sorriso glorioso quando arremessei aos seus pés um maço lacrado idêntico ao que ele jogou no chão.. Como foi parar ali?Eu e ele perguntamos em um único som.
Sorrisos trocados, ele olha pra mim e vê uma vítima, tem pena. Ele vê uma mulher que provavelmente fugiu de sanatório, a explicação que seu cérebro imediatamente processa pela camisola rasgada e suja na qual me encontro. Eu olho pra ele e vejo uma vítima, tenho pena. Eu vejo um homem atormentado e perdido, minha alma imediatamente reconhece a dor de não se encontrar em lugar algum. Nos queremos nos salvar, é mútuo, ele se importa comigo, ao contrário de mim, não pode esconder o seu pesar. Dos seus olhos brotam lágrimas, agora percebo que não ouvi o som da sua voz, só leio em alto bom som a sua mente, ele não fala?
Me aproximo, ele também. Com calma, ambos com medo de assustar... Eu o amo profundamente.
Será que eu conseguiria machucá-lo? Agora não! Mãe!
Corro, ela me chama, deixei meu amor com a sensação de ter visto uma miragem, de ter sonhado, de estar piorando...Que pena!
Ela me chama, e eu não sou dona da minha vontade no momento. Corro como se minha vida dependesse disso, como se a dela dependesse disso.

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