
Caiu a noite, ela veio densa, misteriosa e repleta, como todos os dias. Ela veio e derramou seu véu, protegendo todas as criaturas que são manipuladoras e nocivas pelos caprichos da mãe natureza. Me cobrindo e despindo sob os raios da meia luz da lua, arrasto-me de meu buraco imundo nos esgotos da cidade, rastejo em meio aos ratos e subo à superfície, nem quando respirava gostava daqui, agora que já não possuo tal luxo, me sinto deslocado.
Mas o local onde o predador e caça devem coexistir é aqui, é onde eu alterno de lugar com o bobo e o cético e me misturo furiosamente na multidão, corpos pútridos se detém a minha frente, o homem é uma eterna caricatura de si mesmo, um palhaço pintando tentando chamar atenção, seus corpos e mentes estão destruídos por venenos encontrados em cada esquina, está cada vez difícil ter uma boa refeição, as vezes relativizo que é uma questão de auto preservação, eles se desvalorizam para sobreviverem, os mais velhos me julgam indulgente e supervalorizador da raça, talvez...
Ando por vários quarteirões, poucas primaveras, poucos invernos e almas bem velhas nas esquinas jogadas ao açoite do vento. Gosto de observar os olhares vazios, durante a noite todos se sentem só, todas as rizadas são estridentes, tudo não passa de uma competição de quem rir melhor.
Não me submeto aos mesmos julgamentos e juízes, minha relatividade é menos relativa, sou adepto da praticidade e esse é me território, sou o Senhor dessas terras e minha palavra é ordem e lei. Aqui é cheio de jovens que não selecionam a caça, mas aprenderam a limpar os próprios rastros, é minha função observar, julgar e punir, todos de minha família tem essa função, é nossa herança e assim será até que o mundo acabe e se reconstrua.
Hoje tenho uma ácida missão a cumprir, sob minha tutela ficará uma lunática, não gosto deles, se você não pensa, não teme, se não teme não tem limites, odeio quem não tem limites, eles cansam as eras de paciência que acumulei.
Mas dever é dever, ninguém quer saber se gosta ou não. Maria, lá vou eu, doce flor da primavera colhida entre as mais selvagens da especie, chega agora sua ultima chance, como se comportará diante da noite vindoura? Será que dentro dessa cabeça doente ainda tem alguma racionalidade? Torço que não, adoraria quebrar seu pescoço e esmagar seu coração, os jovens só servem de comida para os anciões.
Um comentário:
Rê e seus desejos mais profundos vindo à tona. :)
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