Um conto de Antropofagia


O banquete está servido, taças, talhares e louças chinesas dispostos adequadamente, toalhas com rendas vermelho escarlate cobrem a mesa, todos os lenços de linho branco devidamente bordados com as iniciais da anfitriã.
Os convidados se aglomeram na entrada tentando antes de se aproximar identificar seu local devidamente mapeado, um desfile de glamour e beleza entre os corredores da mansão, moças e moços jovens, de famílias pomposas e tradicionais estão na lista, acompanhados de poderosos políticos da época.
Tudo está organizado da forma mais elegante, atraente e apetitosa possível, mas cadê a comida? Escuta-se como um sussurro de um dos convidados, os empregados acomodam, e deixam-nos mais confortáveis com drink's , tocado um suave música de fundo.
A anfitriã desce a escadaria num longo e justo vestido de veludo negro, decotado dos ombros até o final da coluna, calçada em sandálias delicadas com saltos ameaçadores de tão finos, é uma mulher chamariz, todos comentam sua entrada, as más línguas soltam um “viúva negra” entre dentes, nada que possa realmente denegrir uma imagem tão sólida da empresária bem sucedida em questão.
Nos lábios trás um batom carmim, nenhuma gota a mais de algo que precise para acentuar a beleza tão invejada, alguns dos mais jovens mancebos da festa apertam os lábios entre as presas até escorrer gotas finas de sangue, reprimindo os instintos naturais masculinos que não são bem vistos na alta sociedade.
Cumprimenta a todos com um sorriso medido, se senta na cabeceira e antes de dar-se inicio ao ritual alimentar propõe um brinde aos convidados pela imprescindível presença, é uma mestre na arte de alimentar egos, merecidos ou não, acena aos serviçais e começa a adentrar o recinto o mais variado e apreciado cardápio que a mente humana possa fazer comparação.
Uns com os outros entre garfadas e goles travam conversações com temas variados, sendo o central o enriquecimento da jovem viúva na cabeceira da mesa...
Helena completara hoje 38 anos, já é viúva por 3 maridos, todos acometidos de um súbito ataque do coração, ela faz mal ao coração masculino, já notará. Recebeu semana passada uma notícia que abalara sua tênue credibilidade no carácter humano, ela está sendo investigada por homicídio, toda a fortuna que ela acumulou ao longos dos anos por esforço próprio está sob restrição, os três maridos eram desprovidos de bens ao início do matrimonio, e mesmo assim a culpam pelas mortes, alegam por suas costas que a sua companhia é venenosa, todas as criaturas ao redor da mesa a odeiam profundamente, os homens pela desejo de possui-la e a impossibilidade em tal fato, e as mulheres pelo sucesso e independência. Todos que estão ali, hoje brindando ao seu aniversário sorriem satisfatoriamente com a eminência de sua ruína, talvez....
Quando recebeu a notícia decidiu que era forte demais para se abalar com a miséria, a cadeia ou a difamação pública, mas não iria dar o prazer de ser vista por baixo, não para esses abutres escandalosos que ruminam a sua frente, traçou durante as madrugadas sem sono um plano, sempre teve uma queda ao drama e ao suspense e decidiu o seu fim. Misturado a gama de temperos do banquete está um entorpecente e estimulante, algo que vai ativar o líbido reprimido de todas essas “pessoas”, algo que despertará um gosto ao bizarro.
Enquanto os convidados se saciam nas carnes exóticas e apimentadas com o alucinógeno ela se despe ritualisticamente, rasgando o fino vestido com uma adaga prateada da alça até a cauda que arrasta no chão, por baixo da veste nada além da tenra carne branca e rígida devido a plásticas, ração apropriada e a exercícios extenuantes, tudo na busca da imortalidade da carne. Hoje por ironia tudo que ela precisava é ter a carne macia, cobre suas vergonhas com frutas e temperos e se deita na mesa, o cozinheiro já instruído com antecedência começa o desmembramento da mestra, entre lágrimas, e serve a senhora conforme a sua vontade aos convidados, os olhos da mestra permanecem abertos, os lábios riscados com um fino sorriso, a dor não gera uma única ruga em sua face.
E os convidados a devoram com garfadas compulsivas e gargalham no delírio. Ela assim se despede da existência, deixando entranhada suas carnes dentro daqueles que a odeiam. Crime e castigo.

Um comentário:

Unknown disse...

Bizarramente senti fome agora. hehe

Bacana, Rê. Muito bacana. *-*