Sonhos...


Esse mundo precisa de heróis, as coisas estão se afunilando. Esse sempre foi o mantra de sua mãe no café da manhã, engraçado como todo dia ela repetia coisas sem sentido até parecer que era certo, suspeito que a verdade depende muito de quantas vezes e com que ênfase foi proferida. Sento-me na beira da cama, sou tão pequena que meus pés mal tocam no chão frio e rubro que na minha visão se torna mar... Sento-me e aprecio a vista das paredes rosadas do meu quarto, nunca gostei de rosa, sempre quis pintá-las de roxo e preto, mas nunca foi conveniente e a conveniência é a alma do negocio, me perco a admirar minha iniciais rasgadas na carne da parede, tudo é meu, é meu domínio e território e tudo posso aqui, mesmo com dez anos sou senhora e dona de tudo. Tão egoísta e egocêntrica esse projeto de gente perdida num mundo de fantasia. Nesses momentos o sonho se sobressaí a realidade, tudo é mais bonito no passado remoto, tudo é mais brilhante pois já passou e nada se pode mais. Ouço meu próprio soluço de medo e lágrimas no escuro do quarto, mas é de outra parte, é preso ao canto esquerdo próximo a porta, é de lá que outra eu mais velha e atordoada vê a menina e chora, dona de conhecimento que não compartilha e que machuca até de ver. Meus olhos se abrem no meio da noite, não está escuro, o meu mundo sempre precisa de luz e há uma tênue linha de brilho resguardando seu sonhar, não há nada a temer. Eu estou aqui pra o que for, cheia de medo e sustos, mas firme e forte, pronta para lutar. Até mesmo contra mim...

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