
Do corpo físico já nada mais restava, estava presa em um mundo imaterial e denso, as carnes podres já haviam se desfeito a séculos passados, mas algum desejo ou missão não descoberta ainda prendia a sua não existência à existência dos demais.
Triste ver o mundo mover sem perceber que você não o move mais, triste ver pessoas que ama se reproduzirem, envelhecerem e morrerem sem ao menos saber que você está.
Para não perder a lucidez, o tino ou qualquer coisa que a mantivesse raciocinando, acompanhava o passar dos anos a evolução e os laços da família, tentava truques com os mais jovens, era amiga imaginária de muitos, ajudou com objetos perdidos escondidos por ela mesma. Tudo o que pode para se manter presente.
Hoje senta aqui e espera, a última de sua linhagem está terminalmente doente, os cabelos já não mais permanecem no lugar, os ossos já não mais se escondem pelas carnes, o vazio dos olhos já não tem mais nenhum brilho.
Serena, sua tetra- alguma coisa neta está deitada na maca do hospital, fitando no espelho a morte que se reproduz numa caricatura da própria face. Eu não vejo tristeza, não vejo dor, não vejo medo... Só uma grande espera, se pudesse ler pensamentos ouviria com certeza o contar dos minutos numa canção repetitiva com aquela voz tão doce, hoje emudecida.
Ela tinha sido sua amiga-descendente preferida. Curiosa e sempre atenta, aprenderá muito rápido e buscava sempre mais, foi a que a manteve junto até a adolescência, algo que nunca tinha acontecido desde que se lembrava de viva ou morta.
No dia 21 de Setembro de 2009 seus pais partiram numa viagem e como presente ela teve sua festa de 15 anos com a casa só pra ela, como qualquer adolescente o previsto era muita bagunça e baderna, mas a festa foi só nossa. Foi lindo! A casa foi coberta de rendas rosa pálido sua cor favorita e vermelho sangue a minha, assistimos filmes naquela máquina que ela se divertiu tanto a me ensinar o nome, o dvd, dançamos lago dos cisnes como na minha festa, ouvimos músicas que ela conhecia e que para mim parecia berros e uivos e sorrimos como não fazia em vida. Foi nosso último dia juntas, ela me culpou pela perda dos pais, acreditava que eu possuísse algum poder de reverter, prever ou eliminar coisas ruins.
Como eu queria, queria poder evitar verter daqueles olhos cinzas qualquer lágrima, recebemos as noticias do acidente antes da meia-noite, eu atendi a porta, todos estranham quando abro a porta, o policial ficou parecido com uma vela, rimos ás duas. Ele seguiu a risada de Serena e a encontrou saltando por trás do sofá em roupas de balé. No mínimo deve tê-la achado estranha, uma moça naqueles trajes, a segurou pela mão e em tom baixo a comunicou.
Ela seguiu para a viatura esbravejando e praguejando comigo ás lágrimas, mas eu não tenho culpa, nem daquilo nem do que a toma agora.
Essa doença traiçoeira que corroí seus órgãos por dentro e a faz definhar, ela nunca casou, ela nunca teve amigos, eu sei, a observei de perto de tão perto que poderia descrever o tom de seu cabelo durante o inverno e o verão, o cheiro de sua pele depois de sair da piscina por horas de nado a noite.
Tudo na vã esperança de ela me chamar, e agora aqui, contando os minutos para o fim de nossa família, eu choro, e sinto que ela pode ouvir meus soluços, mas ela não me vê, ela não quer mais me ver.
E ficarei aqui, sozinha e insana para sempre.
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