- Vocês pegaram a garota errada!!!
Tudo o que parecia sair daquela boca descarnada além de sangue era esse lamento.
O interrogador seguia inquieto, com um sorriso estampado no rosto. Era inegável o prazer que ele retirava de casa seção, os outros expectadores se mostravam um tanto desconfortáveis mediante as técnicas do primeiro, mas ninguém em momento algum parecia disposto a interceder pela jovem de olhos azuis manchados pelo sangue das lágrimas...
Estavam todos entretidos demais no espetáculo, não se faziam notar entre si.
O último expectador no canto direito oi pego numa súbita necessidade de respirar, uma onda negra como a própria morta rodeava seu rosto, abafando seus gritos e entrando no seu corpo pela boca que inutilmente procurava respirar, acelerando o afogamento silencioso pela própria escuridão.
Enquanto sem notar o sofrimento do parceiro e sem notar nada pelo visto na sala o segundo tem sua cabeça arrancada por braços negros e seus olhos antes da morte final captam o próprio coração sendo removido do corpo e esfarelado pela mesma criatura.
- Não, eles vão se comportar, por favor, não!
Nosso profissional da tortura tem um espasmo de êxtase ao escutar os lamentos doloridos da garota, seus olhos refletem o prazer de quebrar a vontade de alguém. Pena que antes de poder entender tudo a garota, aquela que nesse mesmo segundo estava chorando e sofrendo, acorrentada na parede surge diante de seus olhos, com as presas a mostra e os olhos malignos embalada num monstro de sombras que aparentemente não gosta muito dele, lamentável.
Ela está andando, escorregando os dedos da mão esquerda no corrimão da escada, enquanto que com a mão direita ela traça a rota do cigarro aos lábios. A frente e as costas uma multidão que parece se afastar com o seu balançar de quadris, o perfume que deixa no ar misturado ao cheiro do cigarro e os feromônios exalados do seu corpo causam distúrbios e múltiplas pertubações, mas nada abala seu caminho, nada balança naquela alma, a não ser os seu cachos embalados pela dança do vento.
E ela percorre o caminho sem medo de errar, independente e consciente de todas as catástrofes causadas pela sua tão perturbadora presença.
As sirenes e as luzes sujavam a beleza do momento.
Três corpos jaziam a beira da estrada, enquanto repórteres e policiais corriam loucos de um lado para o outro.
Alguns minutos antes, do outro lado da pista uma mãe e seu filho atravessavam na faixa de perdestes e um carro em alta velocidade avançou o sinal. A mãe tentou amparar o impacto com o próprio corpo.
Algumas horas antes, um pai recebeu o telefonema de seu filho adolescente que estava na balada.
O carro, um modelo preto, com motor envenenado, vinha fugindo de uma blitz. O motorista olhava desesperado pelo retrovisor, a preocupação no momento era perder a carteira e ter o caso preso, quando sentiu um baque contra o carro, veio a sensação de ser pego por um quebra mola de surpresa.
A mãe vinha brigando com filho por que há pouco tempo corria e quase foi pego por um carro. Ele esperneava e chorava preso pelo braço nas garras da mãe. No meio do sermão ela percebe que o carro não vai parar no sinal e, sem ter como voltar, ela dá as costas para o carro e abraça o filho com todo o corpo.
O pai, raivoso, sai de casa pela manhã para pegar o filho, que está fora de si, depois de mais uma noite de farra. Apos uma viagem de uma hora em um ônibus lotado com um monte de trabalhadores indo cumprir sua jornada de trabalho (afinal é segunda-feira), chega para mais uma dolorosa discussão com o filho único.
O carro está parado agora. No chão está a mãe desacordada, a criança voou a uma grande distância, a cabeça apoiada no meio fio e uma poça de sangue molhando seus lindos cachos castanhos.
O pai tenta tomar a chave do carro do filho, afinal ele não tem a mínima condição de dirigir. Está bêbado e com um aspecto demente que suspeita ser consumo de algo além das cervejas, mais meia hora de briga acirrada.
A mãe desperta, como se acordasse de um sonho ruim, com o tórax perfurado e sangrando o uniforme, provavelmente do trabalho. Ao redor, uma viatura de policia com as luzes fortes ligadas e os guardas falando agitados pelo rádio. Ela cambaleia como a procura de algo e nos lábios, um nome engasgado com o sangue que escorre sem parar pela boca, acompanhando o ritmo do que sai pelo ouvido e por outras partes do corpo.
O policial percebe a mulher se agitando, andando em direção a ele, aperta o radio com força, o coração apertado e pede urgência na ambulância. Ele lança a mulher um olhar de pena e despedida e caminha até ela.
A mãe pede pelo filho, mas aquele homem fardado parece que não compreende a urgência dela. Onde está seu bebê, porque ele não a larga, ela só quer seu bebê! O que esse amontoado de pessoas quer olhando para ela? Com que direito lançam aqueles olhares?
Se esperneando, cambaleia através da pista até avistar um borrão vermelho um pouco afastado. Uma dor sem fim corta sua carne bem na altura do estomago, um vazio como se tivesse perdido um membro importante do corpo. As pernas parecem entender seu desespero e aceitam o comando de correr até o borrão.
No chão, o corpo pequeno, franzino, arranhado, pálido, com os cachos molhados e olhos fechados como que sonhando.
O policial se ajoelha ao lado da mãe, que embala freneticamente o filho, com os olhos fechados e cantando uma canção de ninar. O sangue dos dois, misturados e unidos como quando ele se desenvolvia dentro dela, protegido dos males do mundo. Ela o aninha no blazer rasgado que veste e o acomoda nessa manta improvisada no chão, apos cavar no canteiro da pista uma espécie de ninho.
A mãe com o olhar perdido pede ao policial para ver ele.
O pai desistiu da briga, o garoto estava impossível.
A mãe com uma voz calma, uma postura firme e como se nada tivesse acabado de acontecer, pede ao policial para falar com o motorista. Ela precisa saber o por que!
O policial olhando nos olhos mortos da mãe, acompanha sem pensar a mulher até o carro, onde estão detidos os dois homens. Seu pensamento está em casa, na sua filha de 5 anos, pouco menor que esse garotinho que dorme no ninho que a mãe forjou no canteiro da pista. Sua pequena princesa, que lhe deu um beijo de bom dia e disse aos sussurros que amava antes dele sair para trabalhar.
O motorista está com os olhos vidrados, na sua cabeça tenta reviver o que aconteceu. Ele não percebeu, ele não viu, e repete milhões de vezes, em silêncio ao lado do pai, que não teve culpa.
Com o olhar na pista, percebe a mulher, acompanhada do policial, caminhar até a viatura.
O pai, perdendo a paciência, perdeu também a razão. Entrou no carro deixando o filho dirigir. Olhou para o filho sentado ao seu lado, pensando em como seria bom se ele nunca tivesse nascido Estaria agora no trabalho e não tendo que inventar uma desculpa para o chefe sobre o porquê de estar chegando atrasado.
Ele estava tão concentrado na ideia de o que tinha feito de tão ruim para que o filho fizesse isso com ele, que não percebeu no canto da boca do filho um sorriso estranho, nem notou o avanço da velocidade.
A mãe chegou ao lado da porta e bateu com o nó da mão na janela. O pai abriu o vidro com uma mão e com a outra procurou a mão do filho e apertou com força.
“Por que”, com os olhos injetados de sangue, com a boca espasmando rosa e as palavras tremulas. “Me desculpe”, balbuciou o pai, inseguro.
Não é suficiente. A voz da mãe saiu firme.
Com as mãos mais ágeis que sugeria para uma mulher, dona de casa, com corpo todo machucado pelo baque de um atropelamento em alta velocidade e que sofreu a perda recente do único filho, ela saca do cós do policial a arma, escora entre os olhos do pai, destrava e aperta o gatilho duas vezes.
O pai, quando se deu conta, já estava em alta velocidade no banco do passageiro, gritando novamente para o filho, baixar a música e reduzir a velocidade. Ele percebe pelo retrovisor que uma sirene os segue, até sentir um baque contra o carro. Quando o filho parou, trocou rapidamente de lugar com ele, o coração estava quase saindo pela boca e sua cabeça estava vazia, mas ele sentia que tudo mudava.
A mãe caminhou com a arma na mão até o ninho, se sentou e aninhou seu bebê nos braços, o beijou e atirou na própria cabeça.
O policial estava atônito, a mulher havia tomado sua arma, ela havia matado o motorista dentro da viatura e por mais que ele pedisse calma ela parecia não escutar, parecia que não estava ali. Ele tinha medo que ela atirasse nele, mas ela só caminhava, com a arma na mão direita pendendo ao lado do corpo.
O pai, antes da aproximação do policial, tinha visto o acidente, uma mulher e uma criança pareciam feridos desse angulo, mas seu filho era só um garoto e pediu para que ele não falasse nada. O policial demorou, porque parou para pedir reforço, socorro, alguma coisa pelo rádio.
O motorista viu o pai, morto, ele piscou os olhos e não estava mais aqui, de repente toda a onda de euforia que a droga, a bebida, as mulheres e a festa tinham sumido. Tudo agora era a grande realidade, com seu pai apoiado em seu ombro, a cabeça pendida. Morto pela mãe da criança que ele havia matado.
Súplica a loucura !!!

Guarde rainha, guarde todas as suas vontades e desejos...Sobreponha a razão a esse sentimento infame que aflora neste corpo profano e cruel... Junte os cacos e recicle tudo que ainda está entranhado dentro de tua alma...
Alguns simplesmente não cabem dentro de teu sublime castelo de vidro, não cabem e nem combinam nos teus cômodos reflexivos, alguns enfeiam as paredes de teu leito com sua medonha face monstruosa.
Guarde! Pois seu puro e nobre coração e sua navalha afiada e envenenada não devem ser macúlados com o pútrido sangue vilão.
Eis-me aqui senhora. Prostrado aos teus pés, adorando-te como a uma deusa ou um anjo. Atordoado com brilho de tua alma, enfeitiçado pelo ardor de teus pensamentos.
Ajoelho-me aos teus pés, na esperança de que a senhora, dama da vida, me aceite para afagar as ondas negras que brotam do topo de sua cabeça, ondas vivas que se movem e se enformam com o carinho do vento.
Peço-te que guarde, que fique, que aceite. Peço-te, pois não me encontro em situação de exigir, pois não disponho de força de vontade nem mesmo para erguer meus olhos diante de ti, dirá de erguer a voz e ter a audácia de mandar-te.
Suplico nitidamente, para que em algum momento dedique a mim, um reles servo, o mínimo de atenção. Pois só por isso meus pulmões fazem a força necessária para respirar, minha senhora e dona de mim.
Diários XIII

Toda criatura pensante tem altos e baixos, até mesmo os brujhas que não são tão pensantes assim tem essas fases...
Acabei de sair de uma crise, um período vermelho pode-se assim dizer, meus olhos, todos eles, estavam costurados( não literalmente) com linhas de insanidade, levemente temperada com o ardor do sangue. Minha mãe como sempre, anjo de sensibilidade e satisfação, me guiou para fora das paredes que trancafiavam minha habilidade de raciocinar. Quantas mais deverei a ela? Um número impossível de calcular.
Hoje as vozes me disseram para caçar. Não algo para preencher a sede, mas algo pra acalmar a alma dessa amaldiçoada criatura que voz escreve.
Ergui-me ao anoitecer, com uma facilidade que me faltava nos meses anteriores, um objetivo me guiava na direção contraria a morada dos anjos... Sua voz me chamava, rouca e perdida, tão conhecida aos meus ouvidos aguçados, tão melodiosa quanto o cantar da harpia. E eu segui.
A cerca e a escuridão me separava do meu objeto de desejo.
Ele movia-se com desdém, como se as coisas não estivessem realmente ali, o seu dançar por entre os brinquedos do parque me deliciaram a alma. Tão desajeitado, com tanto pesar, com a alma tão rodopiante, eu o queria pra mim.
Os dedos moviam-se rapidamente a procura do cigarro, o desejo era tão profundo com era fácil visualizar nos seus olhos, a frustração do maço vazio e o arremesso furioso ao chão, como se dali brotasse magicamente pelo efeito ritualístico o dono do seu vício. O sorriso glorioso quando arremessei aos seus pés um maço lacrado idêntico ao que ele jogou no chão.. Como foi parar ali?Eu e ele perguntamos em um único som.
Sorrisos trocados, ele olha pra mim e vê uma vítima, tem pena. Ele vê uma mulher que provavelmente fugiu de sanatório, a explicação que seu cérebro imediatamente processa pela camisola rasgada e suja na qual me encontro. Eu olho pra ele e vejo uma vítima, tenho pena. Eu vejo um homem atormentado e perdido, minha alma imediatamente reconhece a dor de não se encontrar em lugar algum. Nos queremos nos salvar, é mútuo, ele se importa comigo, ao contrário de mim, não pode esconder o seu pesar. Dos seus olhos brotam lágrimas, agora percebo que não ouvi o som da sua voz, só leio em alto bom som a sua mente, ele não fala?
Me aproximo, ele também. Com calma, ambos com medo de assustar... Eu o amo profundamente.
Será que eu conseguiria machucá-lo? Agora não! Mãe!
Corro, ela me chama, deixei meu amor com a sensação de ter visto uma miragem, de ter sonhado, de estar piorando...Que pena!
Ela me chama, e eu não sou dona da minha vontade no momento. Corro como se minha vida dependesse disso, como se a dela dependesse disso.
Mentiras Insignificantes

Suave e serena como nevoa
sua presença veio e rodeou
todo meu corpo,
Tentáculos de sombra
desenham cicatrizes
estimulam um leve desconforto
pelo toque macio e gelado,
O hálito de fumaça e o gosto de fel
invadiram através de meus lábios
E confesso
o gosto da loucura só amarga
no inicio.
Viciante é o balançar de teus quadris
ao alcance do toque, lançando perfumes
E quando me preparo para agarrar
De novo tudo virá nevoa e se vai
sorrateiramente como chegou.
Improvável
Ás vezes seus lábios se mechem e emitem um som reconfortante
ás vezes eles simplesmente me deixam revoltosa,
és tão ávido na arte de se auto menosprezar
qual é o defeito do teu cérebro em reconhecer as próprias qualidades?
É, meu bom amigo, você tem qualidades:
monstruosas, gigantescas e abissais.
Eu me perco em seus braços por paz,
me aconchego entre seus dedos pelo conforto
Mal sabe você o bem que me faz
pena não ser possuidora de algum dom mágico
um que pudesse fazê-lo sempre sorrir
Não sabia?
... o quão belo é o contorno dos teus lábios preso em um sorriso seu
O seu caráter, que a todo custa tenta mudar
é a esperança da humanidade.
Sabe... o que seria do mundo se todos pensassem como ti?
Um lugar melhor,
um lugar onde antes de ferir alguém
se pensaria na dor que causaria
e como se sentiria nesse caso.
Queria ter o dom de pintar um quadro onde você estivesse realizado
Só pela simples satisfação de você em algum momento estar feliz.
Você está em minha orações
preciosa jóia
e nelas eu só peço pelo seu bem.
ás vezes eles simplesmente me deixam revoltosa,
és tão ávido na arte de se auto menosprezar
qual é o defeito do teu cérebro em reconhecer as próprias qualidades?
É, meu bom amigo, você tem qualidades:
monstruosas, gigantescas e abissais.
Eu me perco em seus braços por paz,
me aconchego entre seus dedos pelo conforto
Mal sabe você o bem que me faz
pena não ser possuidora de algum dom mágico
um que pudesse fazê-lo sempre sorrir
Não sabia?
... o quão belo é o contorno dos teus lábios preso em um sorriso seu
O seu caráter, que a todo custa tenta mudar
é a esperança da humanidade.
Sabe... o que seria do mundo se todos pensassem como ti?
Um lugar melhor,
um lugar onde antes de ferir alguém
se pensaria na dor que causaria
e como se sentiria nesse caso.
Queria ter o dom de pintar um quadro onde você estivesse realizado
Só pela simples satisfação de você em algum momento estar feliz.
Você está em minha orações
preciosa jóia
e nelas eu só peço pelo seu bem.
A inspiração, a necessidade e a devoção ao ato de escrever me abandonaram, tiraram férias, licença ( quem dera que maternal) e estou aqui, de vez em quanto a olhar essas páginas vazias na ânsia de exteriorizar algum sentimento oprimido, mas cara fala sério, quando eu quero oprimir eu sei fazer isso tão perfeitamente que nem no papel e na caneta eu consigo exteriorizar, até no pensamento fica meio borrado, como que envolto em brumas mágicas. Rs
Não é que eu esteja em um mal momento, ou num maravilhoso, acho que estou em stand by, naqueles momentos em que a correnteza vai levando, estou sem ataques de fúria, é que eu não mais controlo as pequenas raivas, as contorno com sarcasmo e nem grandes felicidades, estou me acostumando com pequenos momentos, me conformando com as brevidades( aquele doce mesmo) dos bons frutos.
E sigo em frente, com a cabeça na altura certa para ver os obstáculos e combater os confrontos certos.
Não é que eu esteja em um mal momento, ou num maravilhoso, acho que estou em stand by, naqueles momentos em que a correnteza vai levando, estou sem ataques de fúria, é que eu não mais controlo as pequenas raivas, as contorno com sarcasmo e nem grandes felicidades, estou me acostumando com pequenos momentos, me conformando com as brevidades( aquele doce mesmo) dos bons frutos.
E sigo em frente, com a cabeça na altura certa para ver os obstáculos e combater os confrontos certos.
Entre um balanço e um rodopio.

Doce e bela menininha, sentada na beira do balanço, com as mãos presas em laços, o olhar perdido no horizonte.
Doce e bela garotinha, pega no rodopio do tempo, lançada no turbilhão da metamorfose, que ao se olhar no espelho estranha a máscara cansada que a observa.
Doce e bela garotinha, que nos lábios carregava um sorriso, agora no peito carrega cansaço e nos olhos sempre marejados, carrega um tico de amor.
Amarga e feia velha, que nos braços carrega um corpo que outrora já foi seu, agora não passa de versos, contos e fábulas. Coisas que não alimentam ninguém.
Alvorecer.
Quando completei seis anos questionei a meu pai o porque de mamãe não estar com a gente, todos os meus colegas de escola possuíam uma mulher doce que lhes fazia o lanche da escola, lhes levava e buscava na escola, que esquentava o leite antes de coloca-los para dormir e que era chamada de mãe, mas na minha casa não havia mulheres, era só eu e o papai.Neste dia ele me falou que a mamãe era uma mulher malvada que havia me abandonado, lembro que chorei duas noites seguidas silenciosamente no meu travesseiro. Todos os terapeutas que conheci até hoje acreditam ser esse o motivo pelo qual sou tão rebelde, eu não. E você Drª?
A mulher negra de sobrancelhas arqueadas na minha frente somente sorri, faz uma anotação numa pequena caderneta e refaz a brilhante pergunta de sempre.
_ Como você se sente a respeito disso, Alvorada?
_ Sabe Drª, eu já estou quase me formando em psicologia, sabia?
_ Como?
_ Pela minha experiência de 5 anos em salas como essa vi que para receber esse diploma basta fazer caras e bocas, fingir que faz anotações, fingir que está escutando o paciente e repetir inúmeras vezes essa pergunta "Como você se sente ?"
Ela me observa, suspeito que falei demais, talvez 12 seja o numero máximo de profissionais da terapia que você pode aborrecer antes de ser mandada para o hospício ou o reformatório.
_ Desculpa Drª Gomes, estava tentando distrai-la, não se repetira. Prometo que serei uma boa garota agora.
_ A sessão acabou Alvorecer, até a próxima sexta. Espero que esteja mais aberta até la, assim poderei ajuda-la melhor, está bem?
_ Claro.
Dou meu sorriso de 1 milhão de dólares, aquele me tira das encrencas na diretoria para ela e saio do consultório, contando mentalmente a quantidade de meses, 78 meses e 2 semanas para me tornar legalmente capaz. É frustrante ter 11 anos por aqui.
_ Como foi a terapia querida?
Quem deveria ir para a terapia era você, seu gordo asqueroso com dupla personalidade.
_ Bem papai querido.
Sorria sua estupida ou ele lhe segurará aqui até o monstro aparecer. Aparentemente o sorriso funcionou. Sexta a noite é dia dele sair e eu terei uma noite minha.
_ Vou para o quarto estudar papai, tudo bem?
_ Vá meu anjo, papai vai dar uma saidinha, mas volto logo, ok?
_ Ok!
Entro no quarto me tranco antes do Monstro aparecer, pego o MP4 Lie- Korn explode pelos fones. Meu corpo está doendo aquele sinal de nascença na parte interna da minha coxa está vermelho, queimando parece uma lua de sangue e fogo. Minha cabeça está pesada, meus ossos parecem ter vida própria e uma vida a ser vivida fora do meu corpo, vão fazer uma festa e minhas carnes não foram convidadas, legal. Deve ser a tal da puberdade que está batendo na minha porta ou a terapeuta que me rebolou uma praga com o tal do “ estar mais aberta” e se tornou literal.
Que droga! A dor é tão grande. Está tudo tão borrado, errado, vermelho...
_ Ontem eu tive um sonho esquisito, estava enorme, tão viva quanto nunca tinha me sentindo nesses onze anos de vida, havia sangue e ele saía de mim, havia dor, mas isso só me deixava mais furiosa, e dava um onda de poder que levantava todos os meus pelos. Eu podia sentir o cheiro de bebida do mendigo da rua nove a quilômetros de distancia, podia ouvir o sussurro de todos os vizinhos do quarteirão, aquela menina mais velha do final da rua estava fazendo coisas com o namorado e eu sabia só pelo palpitar do seu coração.
Eu estava com tanta fome, um desejo gigantesco de carne, gigantesco... essa era a palavra certa, parecia que era maior que eu, parecia que nada poderia supri-lo, saí do quarto, quando atravessava o corredor em direção a cozinha dei de cara com meu reflexo no espelho do banheiro, mas não era eu, era um animal grande, de pelo escuro, com grandes músculos em lugares que eu nem sabia da existência, passei uma fração de segundo observando o grande animal, não mais que isso pois tinha alguém exigindo minha atenção, rugindo, era meu estomago.
Já havia consumido todos os bifes que estavam na geladeira e nada daquela fome bizarra passar, a essa altura sem perceber eu já estava salivando parada na porta de casa, presa dentro daquele corpo animal que não me pertencia farejando o mendigo da rua nove, caminhando movida pelas imagens de meus dentes no seu corpo imundo. Mas um cheiro familiar me tirou quebrou o transe da caçada, vinha da praça abandonada no final da cidade, a assombrada. Tomo impulso e me vejo correndo numa velocidade incrível, estou de quatro e corro como uma lebre, não, como uma loba, uma rastreadora.
Do outro lado da praça está um grande cachorro negro, pelo cheiro é uma fêmea e ela está chorando?cantando?uivando? Uma mistura perfeita de sentimentos e ela parece tão furiosa, perigosa quanto triste. Antes de poder alcança-la, toda aquela dor volta, olho para o céu e está tudo vermelho, acho que agora vou morrer, na praça abandonada vendo o nascer do sol mais bonito do mundo.
_ Então é isso Drª. É por esse motivo que eu pedi uma consulta de emergência , acho que estou tendo alucinações.
_ E você acordou na praça?
_ Não, em casa, mas tenho certeza que estava com minhas calças cargo militar marrom e minha camisa preta do Metallica só que acordei com o blusão de dormir e essa muda de roupa não estava em lugar nenhum.
_ Você provavelmente a tirou para lavar e devido a sua habitual falta de concentração não se lembra aonde colocou.
_ Deve ser.. Sonho meio louco , não é?
_ Talvez seja você se abrindo mais...
_ É... Talvez.
Eu já fui a muitas terapeutas, mas essa mulher tem um jeito estranho de me olhar, um brilho meio bizarro e dando uma olhada melhor ela não parece uma terapeuta.
Droga! Agora estou com mania de perseguição, acho que sou filha do velho maluco mesmo e essa coisa de paranoia delirante é mesmo hereditária. Não podia ter nascido numa família normal com pai, mãe, irmãos, ricos, bonitos e saudáveis para ter algo genético útil a ser herdado? Deus, você é um cara hilário. E vocês, pai doente mental e mãe vagabunda que me abandonou, são pessoas com um puta senso de humor, de onde tiraram registrar um pobre criança com o nome de Alvorecer? Nascer nesta família conturbada já me ajuda o suficiente a passar pela adolescência na escola pública sem muitos traumas.
Primeiro dia do ano letivo, sou adiantada, tenho um pai maluco, vou a terapia desde os seis anos, fui abandonada pela mãe antes de saber falar “gugu-dada” e tenho um nome bizarrinho. Isso já ajuda e muito na minha popularidade negativa, só que além disso , já vai fazer um ano que tenho apagões e conforme a minha agenda é sempre no período da primeira lua cheia. Me sinto vigiada e não é por aqueles garotos estúpidos da turma popular, é por olhos invisíveis que são mais rápidos em se esconder do que eu em identificar.
Minha vida familiar, pessoal, social e acadêmica está uma verdadeira merda e amanhã será meu decimo segundo aniversário e cairá bem na lua cheia, o comemorarei no consultório de Drª Gomes, espanquei com a cadeira um garoto metido a engraçado da 8ª série. Parabéns para você Alvorada!
Noite de lua cheia, estou decidida a parar com os apagões, eu já tenho doze anos, já estou grande o suficiente para me controlar, essas foram as palavras do Monstro ao me dar minha surra de aniversário.
Parece que o Monstro fica cada vez mais furioso comigo com o passar dos anos, o ouvi pensar alto, nem sabia que era capaz de tal proeza, ele me acha parecida com a mamãe, sussurrou algo como se fosse acabar de destruí-lo, terminar o serviço que ela começou. Nasceu uma certa empatia por essa mulher misteriosa que me “deu a luz”.
Já está tudo pronto, me tranquei no quarto com a filmadora ligada, tenho que descobri o que acontece antes que eu fique nua. Toda vez que apago perco uma muda de roupa.
Sonho de novo. Só que dessa vez eu gravei e vou ver o que acontecesse com as minhas roupas neste acesso de sonambulismo mensal.
_ Podemos ver que você tem um talento nato para o cinema querida Alv, estes efeitos são incríveis, a tecnologia faz mesmo coisas inacreditáveis, esses computadores, se eu tivesse a sua idade realmente me convenceria, sabe.
_ Não é efeito.
_ Você não me falou que tinha feito uma amiga, muito menos uma dessa idade.
_ Não fiz.
_ Então, quem é a mulher que a carrega no colo e lhe veste ao amanhecer? Uma atriz?
_ Não sei.
No dvd me contorço de dor como no sonho, mas eu cresço, pelos aparecem por todo o meu corpo, meu rosto toma uma aparência bestial, durante o crescimento minha roupa virá retalhos, pelo menos este mistério está resolvido. Saio pela janela e ao amanhecer uma mulher loira, vestida com um manto negro me traz nos braços nua, coberta de sangue, me limpa, aplica uma injeção na minha coxa e me veste com a velha camiseta de dormir. Ela olha para a câmera, sorri e os olhos são dos mais belos castanhos que já vi, tão parecidos com os meus, e tem um brilho tão familiar...
Sozinha

Do corpo físico já nada mais restava, estava presa em um mundo imaterial e denso, as carnes podres já haviam se desfeito a séculos passados, mas algum desejo ou missão não descoberta ainda prendia a sua não existência à existência dos demais.
Triste ver o mundo mover sem perceber que você não o move mais, triste ver pessoas que ama se reproduzirem, envelhecerem e morrerem sem ao menos saber que você está.
Para não perder a lucidez, o tino ou qualquer coisa que a mantivesse raciocinando, acompanhava o passar dos anos a evolução e os laços da família, tentava truques com os mais jovens, era amiga imaginária de muitos, ajudou com objetos perdidos escondidos por ela mesma. Tudo o que pode para se manter presente.
Hoje senta aqui e espera, a última de sua linhagem está terminalmente doente, os cabelos já não mais permanecem no lugar, os ossos já não mais se escondem pelas carnes, o vazio dos olhos já não tem mais nenhum brilho.
Serena, sua tetra- alguma coisa neta está deitada na maca do hospital, fitando no espelho a morte que se reproduz numa caricatura da própria face. Eu não vejo tristeza, não vejo dor, não vejo medo... Só uma grande espera, se pudesse ler pensamentos ouviria com certeza o contar dos minutos numa canção repetitiva com aquela voz tão doce, hoje emudecida.
Ela tinha sido sua amiga-descendente preferida. Curiosa e sempre atenta, aprenderá muito rápido e buscava sempre mais, foi a que a manteve junto até a adolescência, algo que nunca tinha acontecido desde que se lembrava de viva ou morta.
No dia 21 de Setembro de 2009 seus pais partiram numa viagem e como presente ela teve sua festa de 15 anos com a casa só pra ela, como qualquer adolescente o previsto era muita bagunça e baderna, mas a festa foi só nossa. Foi lindo! A casa foi coberta de rendas rosa pálido sua cor favorita e vermelho sangue a minha, assistimos filmes naquela máquina que ela se divertiu tanto a me ensinar o nome, o dvd, dançamos lago dos cisnes como na minha festa, ouvimos músicas que ela conhecia e que para mim parecia berros e uivos e sorrimos como não fazia em vida. Foi nosso último dia juntas, ela me culpou pela perda dos pais, acreditava que eu possuísse algum poder de reverter, prever ou eliminar coisas ruins.
Como eu queria, queria poder evitar verter daqueles olhos cinzas qualquer lágrima, recebemos as noticias do acidente antes da meia-noite, eu atendi a porta, todos estranham quando abro a porta, o policial ficou parecido com uma vela, rimos ás duas. Ele seguiu a risada de Serena e a encontrou saltando por trás do sofá em roupas de balé. No mínimo deve tê-la achado estranha, uma moça naqueles trajes, a segurou pela mão e em tom baixo a comunicou.
Ela seguiu para a viatura esbravejando e praguejando comigo ás lágrimas, mas eu não tenho culpa, nem daquilo nem do que a toma agora.
Essa doença traiçoeira que corroí seus órgãos por dentro e a faz definhar, ela nunca casou, ela nunca teve amigos, eu sei, a observei de perto de tão perto que poderia descrever o tom de seu cabelo durante o inverno e o verão, o cheiro de sua pele depois de sair da piscina por horas de nado a noite.
Tudo na vã esperança de ela me chamar, e agora aqui, contando os minutos para o fim de nossa família, eu choro, e sinto que ela pode ouvir meus soluços, mas ela não me vê, ela não quer mais me ver.
E ficarei aqui, sozinha e insana para sempre.
Uma visão interna.
Estou aqui, presa no abismo. Escuridão cerca e sufoca em todas as direções, é possível se movimentar através de suaves braçadas idênticas as da natação, aquelas que sempre me foram úteis para espairecer na piscina pública no final da rua. Hoje estou aqui, no meu auto intitulado inferno particular, meus irmãos de dor e sofrimento seguem por uma luz, já descobri pela experiência que a luz não é igual a salvação. Estou aqui por seguir uma luz, não serei eu que cairei nesse segundo golpe. Aos meus favoritos dou o conselho, mas os filhos da puta não seguiam conselhos nem quando eram vivos, dirá agora que são demônios, não que essa terminologia seja a apropriada para o caso, são só almas atormentadas e com feições apropriadas as violências, afinal daqui do nosso lado a carne já não cobre mais a podridão. Atire a primeira pedra quem nunca maculou sua alma com pré julgamentos, com desejos egoístas ou uma leve gota de orgulho? Negar isso também deixa marcas...
A maioria sobe guiada por um sede de vingança, por um desejo de violência, por razão que apesar de não serem conhecidas por mim, literalmente transparecem ao olhar, a luz é o reflexo da lua atravessando a água do poço, o poço usado como portal por algum humano bizarro e metódico que resolveu soltar as bestas do inferno na terra, e o pior que daqui a algumas horas, minutos ou segundos será meu vizinho, que maravilha. Tudo bem! Sou uma pessoa curiosa, não me arrancariam os olhos por uma espiadela, não é?
Ouço urros e tintilares de metal, os urros são palavras de rancor de alguns dos vizinhos, velhos conhecidos pela preferência de palavras depreciativas, os tintilares de metal são espadas retalhando a investida de meus irmãos, que inapropriado, os caras passam eras presos no mundo inferior e quando humanos presunçosos os convidam para uma festa particular, vem essa repressão... Ainda bem que não sou mais uma criatura de fúria, ainda bem que meus olhos não queimam mais e ainda bem que eu conheço alguém que pode equilibrar essa disparidade, afinal guiar alguém não é o mesmo que fazer, não é?
Esgueirando-me por entre a escuridão lamacenta, inalando com certa intimidade o odor de enxofre que já me segue desde tempos imemoriáveis, limitando o contato de minha pele apodrecida e escamada aos demais vizinhos, me aproximo de Simaleon, ele é o que todo mundo descreve como a besta, mas é um cara sensato, sempre faz o que indico para ele, é muito doce por sinal, gosta de presentear os amigos, e sempre os agrada com as cabeças decepadas dos inimigos ainda jorrando sangue quente para apaziguar a fome.
Simaleon está sentado no canto, ainda com trapos que apesar do tempo, lhe cobrem as “vergonhas”, o capuz ainda esconde sua face, da qual se envergonha por não ser desmazelada como as dos demais, aqui o feio é ser belo. Ele afia seu machado, amigo inseparável do bárbaro humano, é seu passatempo preferido, apesar de não ser possível observar seus olhos, sei que está sorrindo e mostro meus dentes, é o que as carnes apodrecidas que cobrem meu rosto deixam fazer mais próximo de um sorriso. Sussurro em seu ouvido as injustiças ocorridas lá fora, que seus irmãos sofrem nas mãos dos injustos e vejam só, uma faísca se ascende. Agora é só sentar e ter realmente o que observar... O que? Vocês achavam que eu estava no inferno inocente? Hahaha
A maioria sobe guiada por um sede de vingança, por um desejo de violência, por razão que apesar de não serem conhecidas por mim, literalmente transparecem ao olhar, a luz é o reflexo da lua atravessando a água do poço, o poço usado como portal por algum humano bizarro e metódico que resolveu soltar as bestas do inferno na terra, e o pior que daqui a algumas horas, minutos ou segundos será meu vizinho, que maravilha. Tudo bem! Sou uma pessoa curiosa, não me arrancariam os olhos por uma espiadela, não é?
Ouço urros e tintilares de metal, os urros são palavras de rancor de alguns dos vizinhos, velhos conhecidos pela preferência de palavras depreciativas, os tintilares de metal são espadas retalhando a investida de meus irmãos, que inapropriado, os caras passam eras presos no mundo inferior e quando humanos presunçosos os convidam para uma festa particular, vem essa repressão... Ainda bem que não sou mais uma criatura de fúria, ainda bem que meus olhos não queimam mais e ainda bem que eu conheço alguém que pode equilibrar essa disparidade, afinal guiar alguém não é o mesmo que fazer, não é?
Esgueirando-me por entre a escuridão lamacenta, inalando com certa intimidade o odor de enxofre que já me segue desde tempos imemoriáveis, limitando o contato de minha pele apodrecida e escamada aos demais vizinhos, me aproximo de Simaleon, ele é o que todo mundo descreve como a besta, mas é um cara sensato, sempre faz o que indico para ele, é muito doce por sinal, gosta de presentear os amigos, e sempre os agrada com as cabeças decepadas dos inimigos ainda jorrando sangue quente para apaziguar a fome.
Simaleon está sentado no canto, ainda com trapos que apesar do tempo, lhe cobrem as “vergonhas”, o capuz ainda esconde sua face, da qual se envergonha por não ser desmazelada como as dos demais, aqui o feio é ser belo. Ele afia seu machado, amigo inseparável do bárbaro humano, é seu passatempo preferido, apesar de não ser possível observar seus olhos, sei que está sorrindo e mostro meus dentes, é o que as carnes apodrecidas que cobrem meu rosto deixam fazer mais próximo de um sorriso. Sussurro em seu ouvido as injustiças ocorridas lá fora, que seus irmãos sofrem nas mãos dos injustos e vejam só, uma faísca se ascende. Agora é só sentar e ter realmente o que observar... O que? Vocês achavam que eu estava no inferno inocente? Hahaha
Sonhos...

Esse mundo precisa de heróis, as coisas estão se afunilando. Esse sempre foi o mantra de sua mãe no café da manhã, engraçado como todo dia ela repetia coisas sem sentido até parecer que era certo, suspeito que a verdade depende muito de quantas vezes e com que ênfase foi proferida. Sento-me na beira da cama, sou tão pequena que meus pés mal tocam no chão frio e rubro que na minha visão se torna mar... Sento-me e aprecio a vista das paredes rosadas do meu quarto, nunca gostei de rosa, sempre quis pintá-las de roxo e preto, mas nunca foi conveniente e a conveniência é a alma do negocio, me perco a admirar minha iniciais rasgadas na carne da parede, tudo é meu, é meu domínio e território e tudo posso aqui, mesmo com dez anos sou senhora e dona de tudo. Tão egoísta e egocêntrica esse projeto de gente perdida num mundo de fantasia. Nesses momentos o sonho se sobressaí a realidade, tudo é mais bonito no passado remoto, tudo é mais brilhante pois já passou e nada se pode mais. Ouço meu próprio soluço de medo e lágrimas no escuro do quarto, mas é de outra parte, é preso ao canto esquerdo próximo a porta, é de lá que outra eu mais velha e atordoada vê a menina e chora, dona de conhecimento que não compartilha e que machuca até de ver. Meus olhos se abrem no meio da noite, não está escuro, o meu mundo sempre precisa de luz e há uma tênue linha de brilho resguardando seu sonhar, não há nada a temer. Eu estou aqui pra o que for, cheia de medo e sustos, mas firme e forte, pronta para lutar. Até mesmo contra mim...
Diários XII

Sinto o calor, leve aconchegante, ele entra ignorando as barreiras, as paredes, as pedras, os véus. O calor entra decidido a dar um fim a existência do frio, eu o sinto mas meus sentidos obscurecidos ironicamente com a presença do astro rei no recinto não conseguem localizar a fonte.
Meu corpo treme e convulsiona como um mortal exposto no ártico. Meu coração gelado bate, eu suspiro, medo. Medo me toma e consome cada músculo do meu corpo, eles são como animais irracionais tomados de instinto e totalmente desvinculados da maquina central. Cada qual lutando pela própria sobrevivência, rs
O seu toque em minha alma é com um carinho materno, um consolo depois de uma briga, um abraço fraterno, um pedido de desculpas de alguém muito querido.
O cheiro de carne queimando e a dor lancinante não combinam com a alegria em minha mente, é como se fossem duas lembranças diferentes partilhadas pela mesma pessoa, a lembrança boa de alguém que já se foi e a agonia de não poder repeti-la, é o sorriso banhado com a mais pura lágrima.
Demoram-se minutos para findar uma existência de séculos, e o fogo solar apaga todas as maculas, todos os pecados e tudo fica santificado.
Quem foi o filho da puta que usou demência em mim? Eu não vou me jogar ao sol! Não vai ser dois pesadelozinhos de merda que vai me induzir a isso, tão OUVINDO!!! Eu já falei que eu sou louca, mas não sou BURRA!!!*espumando sangue*
_ Pode cair dentro.
Um conto de Antropofagia

O banquete está servido, taças, talhares e louças chinesas dispostos adequadamente, toalhas com rendas vermelho escarlate cobrem a mesa, todos os lenços de linho branco devidamente bordados com as iniciais da anfitriã.
Os convidados se aglomeram na entrada tentando antes de se aproximar identificar seu local devidamente mapeado, um desfile de glamour e beleza entre os corredores da mansão, moças e moços jovens, de famílias pomposas e tradicionais estão na lista, acompanhados de poderosos políticos da época.
Tudo está organizado da forma mais elegante, atraente e apetitosa possível, mas cadê a comida? Escuta-se como um sussurro de um dos convidados, os empregados acomodam, e deixam-nos mais confortáveis com drink's , tocado um suave música de fundo.
A anfitriã desce a escadaria num longo e justo vestido de veludo negro, decotado dos ombros até o final da coluna, calçada em sandálias delicadas com saltos ameaçadores de tão finos, é uma mulher chamariz, todos comentam sua entrada, as más línguas soltam um “viúva negra” entre dentes, nada que possa realmente denegrir uma imagem tão sólida da empresária bem sucedida em questão.
Nos lábios trás um batom carmim, nenhuma gota a mais de algo que precise para acentuar a beleza tão invejada, alguns dos mais jovens mancebos da festa apertam os lábios entre as presas até escorrer gotas finas de sangue, reprimindo os instintos naturais masculinos que não são bem vistos na alta sociedade.
Cumprimenta a todos com um sorriso medido, se senta na cabeceira e antes de dar-se inicio ao ritual alimentar propõe um brinde aos convidados pela imprescindível presença, é uma mestre na arte de alimentar egos, merecidos ou não, acena aos serviçais e começa a adentrar o recinto o mais variado e apreciado cardápio que a mente humana possa fazer comparação.
Uns com os outros entre garfadas e goles travam conversações com temas variados, sendo o central o enriquecimento da jovem viúva na cabeceira da mesa...
Helena completara hoje 38 anos, já é viúva por 3 maridos, todos acometidos de um súbito ataque do coração, ela faz mal ao coração masculino, já notará. Recebeu semana passada uma notícia que abalara sua tênue credibilidade no carácter humano, ela está sendo investigada por homicídio, toda a fortuna que ela acumulou ao longos dos anos por esforço próprio está sob restrição, os três maridos eram desprovidos de bens ao início do matrimonio, e mesmo assim a culpam pelas mortes, alegam por suas costas que a sua companhia é venenosa, todas as criaturas ao redor da mesa a odeiam profundamente, os homens pela desejo de possui-la e a impossibilidade em tal fato, e as mulheres pelo sucesso e independência. Todos que estão ali, hoje brindando ao seu aniversário sorriem satisfatoriamente com a eminência de sua ruína, talvez....
Quando recebeu a notícia decidiu que era forte demais para se abalar com a miséria, a cadeia ou a difamação pública, mas não iria dar o prazer de ser vista por baixo, não para esses abutres escandalosos que ruminam a sua frente, traçou durante as madrugadas sem sono um plano, sempre teve uma queda ao drama e ao suspense e decidiu o seu fim. Misturado a gama de temperos do banquete está um entorpecente e estimulante, algo que vai ativar o líbido reprimido de todas essas “pessoas”, algo que despertará um gosto ao bizarro.
Enquanto os convidados se saciam nas carnes exóticas e apimentadas com o alucinógeno ela se despe ritualisticamente, rasgando o fino vestido com uma adaga prateada da alça até a cauda que arrasta no chão, por baixo da veste nada além da tenra carne branca e rígida devido a plásticas, ração apropriada e a exercícios extenuantes, tudo na busca da imortalidade da carne. Hoje por ironia tudo que ela precisava é ter a carne macia, cobre suas vergonhas com frutas e temperos e se deita na mesa, o cozinheiro já instruído com antecedência começa o desmembramento da mestra, entre lágrimas, e serve a senhora conforme a sua vontade aos convidados, os olhos da mestra permanecem abertos, os lábios riscados com um fino sorriso, a dor não gera uma única ruga em sua face.
E os convidados a devoram com garfadas compulsivas e gargalham no delírio. Ela assim se despede da existência, deixando entranhada suas carnes dentro daqueles que a odeiam. Crime e castigo.
Diários XI

Caiu a noite, ela veio densa, misteriosa e repleta, como todos os dias. Ela veio e derramou seu véu, protegendo todas as criaturas que são manipuladoras e nocivas pelos caprichos da mãe natureza. Me cobrindo e despindo sob os raios da meia luz da lua, arrasto-me de meu buraco imundo nos esgotos da cidade, rastejo em meio aos ratos e subo à superfície, nem quando respirava gostava daqui, agora que já não possuo tal luxo, me sinto deslocado.
Mas o local onde o predador e caça devem coexistir é aqui, é onde eu alterno de lugar com o bobo e o cético e me misturo furiosamente na multidão, corpos pútridos se detém a minha frente, o homem é uma eterna caricatura de si mesmo, um palhaço pintando tentando chamar atenção, seus corpos e mentes estão destruídos por venenos encontrados em cada esquina, está cada vez difícil ter uma boa refeição, as vezes relativizo que é uma questão de auto preservação, eles se desvalorizam para sobreviverem, os mais velhos me julgam indulgente e supervalorizador da raça, talvez...
Ando por vários quarteirões, poucas primaveras, poucos invernos e almas bem velhas nas esquinas jogadas ao açoite do vento. Gosto de observar os olhares vazios, durante a noite todos se sentem só, todas as rizadas são estridentes, tudo não passa de uma competição de quem rir melhor.
Não me submeto aos mesmos julgamentos e juízes, minha relatividade é menos relativa, sou adepto da praticidade e esse é me território, sou o Senhor dessas terras e minha palavra é ordem e lei. Aqui é cheio de jovens que não selecionam a caça, mas aprenderam a limpar os próprios rastros, é minha função observar, julgar e punir, todos de minha família tem essa função, é nossa herança e assim será até que o mundo acabe e se reconstrua.
Hoje tenho uma ácida missão a cumprir, sob minha tutela ficará uma lunática, não gosto deles, se você não pensa, não teme, se não teme não tem limites, odeio quem não tem limites, eles cansam as eras de paciência que acumulei.
Mas dever é dever, ninguém quer saber se gosta ou não. Maria, lá vou eu, doce flor da primavera colhida entre as mais selvagens da especie, chega agora sua ultima chance, como se comportará diante da noite vindoura? Será que dentro dessa cabeça doente ainda tem alguma racionalidade? Torço que não, adoraria quebrar seu pescoço e esmagar seu coração, os jovens só servem de comida para os anciões.

Fina teia costurada pelos longos fios rubros de seu cabelos, molhada com as gotas serenas de teu incalculado pranto.
Fina teia costurada pelas inverdades proferidas na tua grave voz.
Gigantesca e frágil construção que rodeia esse músculo rígido que não pulsa em teu seio.
Magnífica obra de arte, talhada nas memórias inaceitáveis de tua mente torpe.
Louco abismo de dor e calúnia, que o tempo, senhor de tudo, tornou intransponível.
Anjo de perdição, de todos os males, o menor é a tua presença, mesmo que para desfruta-la me seja necessário suar sangue.
Não me abandone, não deixe os sonhos desfazerem-se.
Acuda-me e cura a chaga que aflige essa perdida e cansada alma.
Nightmares

Três da manhã, ela acorda com o gosto do sangue na boca... os olhos não se abrem no primeiro momento, é como se a onda do sono ainda mantivesse presa na terra da escuridão. Seu olfato ainda sente a presença maligna através do odor do suor forte, seus músculos ainda tremem da tensão.
Ordena ao próprio corpo acordar, mexer-se ajuda, sempre ajuda. Na mente a lembrança forte do homem que assaltou seus pesadelos, forte, bem vestido, nos lábios um sorriso perverso e torto, a voz rouca e firme e as intenções perigosas.
Se toca, verificando os machucados do sonhar, tudo não passou de um sonho ruim... É nessas horas que o colo materno faz mais falta, não tem a cama da mamãe para se proteger, não tem os braços macios e negros dos quais nenhum perigo no mundo poderiam capta-la.
A vulnerabilidade se deixa transcorrer com lágrimas volumosas, a sensação de perigo ainda está palpável, não quer mais dormir, não quer voltar para o mundo e sentir na pele aquela violência, o mundo real é cruel, mas o subconsciente é mais aterrorizador.
Ora, porque foi assim que aprendeu: _ Meu anjo da guarda, meu bom amiguinho, leve-me sempre pelo bom caminho.
A oração inocente, infantil lhe remete a tempos puros, onde o mal não assombrava sua mente, o coração aos poucos sossega, mas o sono, companheiro fiel, lhe nega acolhida, a solução é tomar um banho de aguá fria e limpar os odores e machucados da alma.
Boa noite!
A jogadora de RPG está de férias, a funcionária explorada mandou a chefe para ocaralhodeasaroxoelatente, a amiga inteirada da felicidades alheia está de licença, a esposa companheira e frustrada (às vezes) pediu as contas, a estudante aplicada fugiu e só ficou a mãe.
Puta que o caralho! Mãe sofre pra burro. Deveria ter escutado a minha...
Puta que o caralho! Mãe sofre pra burro. Deveria ter escutado a minha...
Oi! Tudo bem?

Bem!
Que glória, entramos no nono dia do mês de maio e já me sinto miserável, será mesmo uma constante os períodos entre Maio e Junho serem péssimos e intoleráveis para minha pessoa? Será mesmo que existe essa merda de inferno astral?
Estava eu ponderando com duas das imbatíveis amigas que sobreviveram a minha amizade a mais de 10 anos, são pouquíssimas por sinal, estava nós comemorando o dia das mãe numa churrascaria regadas a cerveja, batatas palito e de pessoas feias torcendo pelo Ceará.
Uma me questionou se eu era feliz, claro a primeira resposta foi, SIM! Em caixa alta e negrito para dar o ênfase da resposta, mas aquilo ficou bolinando com a minha mente, terminamos, rimos, soltamos doses de veneno consideráveis como em toda reunião nossa, mas aquele cutucão permaneceu lá, como um espinho debaixo da unha. À noite, cercada pelos braços de meu homem, ele repete o questionamento anterior, pondero, mas com meu homem sempre tive a oportunidade de ser verdadeira, até mesmo cruel de tão verdadeira, somos assim um com o outro, esse é o segredo mágico de tanto tempo juntos, a crueldade... digo a sinceridade rs
Hoje eu não fui feliz, nem ontem, nem antes de ontem, esse mês ainda não fui feliz, eu sou uma mulher feliz em alguns momentos, em alguns setores, mas não plenamente e para falar a verdade, esse ano é possível contar nos dedos de uma mão os meus momentos felizes, ando coberta com uma raiva e amargura considerável, um vazio queimando a garganta ( não é o cigarro¬¬'), uma necessidade de gritar as coisas que ofendem, não consigo guardar mais nada, nenhuma injustiça, nenhuma calúnia ou levantamento de falso, não engulo mais falsos elogios, bajulações baratas.
Senhor, ando tão saturada de pequenas coisas, do meu trabalho, do meu excesso de trabalho, da minha desvalorização que está transbordando em outras coisas.
Me magoar agora duas vezes mais fácil, tudo que me causaria dor, gera agora uma terrível e condensada explosão de ira, disposição para ser feliz me falta, é tão mais fácil ficar zangada que as vezes nem me esforço.
Ultimamente mandar alguém tomar no ** é mais fácil que dar: Bom dia!
Tratar-me-ei em breve... Dizem que uma boa farra cura todos os males.
Assinar:
Postagens (Atom)